quarta-feira, 14 de março de 2012

Todo dia têm poesia

Meu poema chama-se todo dia,
Ele nasce cedo e dorme tarde,
Ele cresce e irradia sem alarde,
Mais uma tarde que cedo partia,
Mais uma noite que tardia,
Mais um poema que eu fazia...




Feliz dia da poesia!

Osíris Duarte 14.03.12

quinta-feira, 8 de março de 2012

Todo dia é dia de João e Maria




    Senti a necessidade de compartilhar minha opinião sobre gênero, família e sociedade nesse 8 de março, dia Internacional da Mulher. É que depois de ler tantas manifestações, por vezes ufanistas, das qualidades, méritos e lutas das mulheres nas redes sociais, fiquei com um sentimento de vazio quando me propus a refletir sobre os argumentos e condutas alardeadas nesse dia. Já de cara devo afirmar: Sou fã de mulher! Minha mãe, uma grande mulher, foi minha mãe e meu pai na minha criação. Meus melhores valores são herança da conduta dela perante a vida. E eu não sou o único homem construído dessa forma. Assim como eu, existem muitos outros homens que sabem o valor que a mulher têm. Homens que sabem respeitar e admirar esse ser tão lindo aos nossos olhos, tão forte e combativo, e ao mesmo tempo tão doce e terno. Mas minha reflexão não quer caminhar para o discurso comum de dias como hoje: as mulheres ressaltando suas qualidades (ainda que por vezes atreladas a um senso machista) e os homens bajulando-as na esperança de serem aceitos e bem quistos como pessoas sensíveis e que sabem dar o devido valor a uma mulher e a história da luta feminista. É esse tipo de abordagem que deixa minha reflexão vazia, capenga. 

  Já discorri antes no palavrão sobre a fragmentação das lutas sociais e o caráter nocivo que isso tem na luta coletiva, no entendimento de comunhão humana. O mesmo argumento sustenta minha opinião sobre os clichês utilizados para ressaltar e glorificar a mulher, colocando-a mais uma vez, na história, em um pedestal de admiração machista, como objeto de admiração masculina e, também, egocentricamente feminina. Vejam bem... Não confronto a história de opressão as mulheres, nem mesmo o direito delas de terem oportunidades iguais as dos homens. E isso não é só questão de justiça, mas sim um ponto óbvio, prático, considerando as necessidades de reforço de valores que fomentem a coletividade e o combate a fragmentação das sociedades humanas, dos preconceitos, da intolerância e da repressão no contexto de relação de poder no mundo humano atual. Mas se levarmos em consideração os diversos segmentos que sofreram ao longo da história - mesmo sabendo que as mulheres representam uma parcela das mais sofridas e negligenciadas - deveríamos criar dias para quase todo mundo, ressaltar as qualidades de todos e valorizar os pontos de luta por justiça para tudo. Não estou questionando a importância de se falar e rememorar a luta feminista, até porque ainda existe uma caminha grande a se fazer nas questões de equidade de oportunidades e tratamento na abordagem de gênero. Mas me pergunto se alguém leva em consideração, nós, homens, quando se fala das mudanças do mundo e das conquistas da luta das mulheres. Eu cresci em um mundo onde os novos papéis femininos já representavam uma parcela muita significativa da construção social. Sou um homem moderno, de tempos novos, que não consegue ver diferença - a não ser a biológica, claro - entre homens e mulheres. Mas, ainda assim, tenho que carregar a responsabilidade histórica da opressão as mulheres, coisa que não fiz, mas que pesa sobre meus ombros. Isso não é justo, mas eu entendo...

  Minha preocupação maior é que o movimento feminista não se vista de algoz como forma de vingança. Se as mulheres podem fazer melhor, podem contribuir para um mundo melhor, elas não devem inverter a lógica da ditadura. Quero dizer que substituir uma ditadura dos homens por uma ditadura das mulheres não tem mérito nenhum, pelo contrário, reforça o equívoco humano de busca por prevalência nas relações de poder. Outra: Ser mulher não é garantia de caráter, boa conduta, maior inteligência ou capacidade. Esse tipo de discurso soa para mim como uma forma de reparação retórica, uma maneira de amenizar o peso histórico da opressão masculina sobre as mulheres com bajulação e subserviência, pelo menos discursiva. Quando falo de considerar o homem nessa caminhada feminina, não falo como se as conquistas das mulheres fossem concessões masculinas, mas sim tento desconstruir uma lógica que fomenta a disputa, o revanchismo e a fragmentação do entendimento de ser humano. Não sou mulher e não sei o quão duro é estar na pele de uma, mas sei das dificuldades de ser homem no processo mutante de vida social. Ao mesmo tempo que me vejo impelido a me questionar sobre meus valores machistas, na busca de ser um sujeito mais justo e digno, combatendo meus preconceitos, entendo que as mulheres têm a mesma responsabilidade de compreensão e transformação íntima. Pra resumir o que estou tentando dizer afirmo: Meninas, não façam como fizeram os homens que me antecederam! Em meio ao entendimento de coletividade não há mais espaço para esse tipo de disputa.     

  Existe uma certa confusão masculina entre reconhecer a capacidade feminina por causa de uma certa relação de complexo de édipo, atrelada ao desejo sexual, que suplanta por vezes a real potencialidade humana da mulher. Isso eu confesso. Mas, por outro lado, existe também por parte das mulheres a busca por um modelo arcaico de homem para ser admirado e desejado. E esse homem, em muitos aspectos, é o mesmo que as oprimiu ao longo da história. Basta prestar atenção em como ainda se dão as relações afetivas entre homem e mulher e quais são as expectativas que ambos tem com relação aos papéis e as características da cada gênero. Ao mesmo tempo que as moças dizem querer um homem sensível, prestativo e respeitoso, na prática muitas se sujeitam a paixão pelos machistas, violêntos e durões. Pior que o machismo dos homens é o machismo das mulheres. Se a mudança do comportamento masculino está atrelada as conquistas da luta feminista e do papel mais significativo da mulher na sociedade, da mesma forma as mudanças nas mulheres se alimentam das transformações nos homens. É uma relação de troca, de interdependência, de sinergia, como tudo é quando se considera um todo acima das partes que lhe compõe.   

  Minha argumentação não pretende polemizar. Sou um dos tantos que acredita na importância da mulher na sociedade, e não como cuidadora apenas, ou como o complemento do homem. Creio na mulher protagonista e não corroboro com o dito popular machista de que "atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher". Porque não consigo imaginar ninguém atrás ou na frente de ninguém. Creio mesmo é em uma humanidade que caminhe lado a lado, independente de orientação sexual, credo, raça ou gênero. E por crer nisso que faço reflexões e cerca dos temas que insistem em nos separar, em nos compartimentar. Instituições como a família, a religião e o estado estão em um processo de mudança claro. Os papéis de mãe, pai, filho, político, padre, e outros tantos mudaram e continuam a mudar. E dentro desse contexto mutante mudamos, quisá para melhor.  A mulher de hoje cada vez mais tem muito do homem de ontem, bem como o homem de hoje tem cada vez mais em si a mulher de ontem. E o meio termo humano, que visa o equilíbrio, não se traduz em orientação sexual, papéis sociais ou características atribuídas ao gênero. Ele se mostra na prevalência dos melhores valores, que são assexuados. E no final, sejam homens ou mulheres, vivemos debaixo do mesmo céu e temos a mesma responsabilidade de construção de mundo melhor, de evolução.          

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O Fotográfico


Faço imagens com obstinada reflexão decisiva.
Sou um louco amador inquieto,
Apaixonado predador de mídias,
Um maníaco colecionador de memórias.

Sou um impetuoso desejo operador,
Interação, luz, tecnologia.
E minha impressão manipulada revela,
Pluralidade corrente interpretativa.

Meu esgotamento de ontologia,
Redução do momento em semiologia.
Transitável debate crítico,
Essência de exceções mais interessantes,
Ânsia de entender o que tardia.

Osíris Duarte 25.02.12

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

E viva a Casa de Orates!


     Foi em meio a conversas de bar, filosofia e esperança de mudanças, mundo melhor, arte e expressão que conheci o pessoal da Casa, quando ainda nem Casa existia. Eu li o Alienista pela primeira vez por causa deles, mesmo já sendo fã de Machado de Assis. O romance do escritor serviu de fonte para o nome da banda. Mas a "casa de loucos" (como se traduziria da linguagem machadiana) tem muito mais lucidez dos que os pretensos normais que trabalham com arte. Os anos de resistência da Casa de Orates no mercado alternativo conferem ao trabalho desse pessoal mais notoriedade do que a fama, merecida, que eles poderiam conquistar se vendendo para o mercado fonográfico. O fato é que a qualidade musical do grupo, que extrapola o mero tocar com preciosismo, não merece, no contexto atual, tocar no grande mercado de massa. Isso não é nem um menosprezo ao mercado e nem a banda, pelo contrário. O papel que artistas independentes tem hoje na construção de acessibilidade a multiplicidade artística, bem como na formação de gosto e opinião, é muito mais importante do que os produtos midiáticos, rotulados exacerbadamente como arte, vendidos ou empurrados goela a baixo para grande maioria das pessoas. Os meios digitais cada vez mais dominam o acesso a arte, cultura e informação, possibilitando que tenhamos opções de maior qualidade na nossa formação artística e cultural. A mistura de Rock psicodélico, brasilidade e filosofia da casa, mostra que é possível sim produzir coisas novas de qualidade, perdurar com tal produção e exercer o artista que há dentro do cidadão comum sem precisar depender, ou sonhar, com o contrato de um gravadora. Quem vive de música - e a maioria que vive não vemos na tv - nem sabe que o gosto pela expressão humana, a necessidade de escape da realidade irreal das construções sociais vai muito além em importância íntima do que uma massagem no ego, um alimento para a vaidade ou a possibilidade de notoriedade pública com relação ao trabalho, fama, dinheiro... Bom, eu sou fã desses caras, além de amigo das antigas, e me orgulho de vê-los em franca evolução, mesmo com a saída de integrantes da banda. A Casa tem essa essência que se mantém no espírito artístico e autônomo dos seus integrantes, e que perdura. As fotos abaixo são do show deles na sexta-feira, véspera de carnaval, em Floripa. Com figurino novo, com a mesma qualidade de produção, e com disco novo prestes a sair quentinho, a banda se renova e se mantém, mesmo com as mudanças, assim como é a vida, o Rock e arte.     











quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Sobre estudar, militar e amar



Por Osíris Duarte - Jornalista

    Por vezes uma angústia toma conta de mim. Um sentimento de inadequação, de ranço do mundo, da vida e das pessoas... Mas imediatamente busco encarar este sentir como sendo a dor do crescimento, dos ossos esticando, dos músculos endurecendo... Lidar com determinadas distorções que desenvolvemos nas formas de relação com o outro e o mundo não pode ser depreciado com base no nosso egocentrismo nem nas nossas vaidades. A imagem que construímos da vida e de uns dos outros está tão condicionada a fatores de ordem psíquica, afetiva e espiritual que perdemos de vista os lampejos de verdade por trás das nossas interpretações de realidade. Quanto a mim, em meio a está condição do mundo, sou apenas mais um, ao mesmo tempo em que em mim, reside um universo particular, tão meu quanto minha forma de olhar a vida.

  Estereótipos são uma merda. Apesar de serem necessários, dada a nossa incapacidade de assimilar o entendimento do ser humano de forma mais plena, menos condicionada aos fatores múltiplos da nossa vida material, de forma menos fragmentada e descontextualizada e mais adequada à própria insondável e misteriosa compreensão de ser quem somos, seja lá quem somos, já que somos compostos ainda, dada nossa ignorância, de elementos mágicos na caminhada universal e existencial. Portanto incorremos constantemente no equívoco do julgamento do outro de forma cega, desconsiderando nossas condicionantes, que se mostram de forma empírica no nosso comportamento, quase de maneira inconsciente.

   Fico sempre ressabiado com as contradições e com a forma contraproducente como nos educamos e nos postamos perante os métodos de educação humana formal. Sou Paulo Freireano no meu entendimento educacional. Como processo humano, parte da nossa capacidade de comunicar aquilo que pensamos e sentimos, partilhando assim com o outro nossa compreensão e conhecimento, a educação só pode ser considerada a sério para mim como processo dialético. Portanto, a forma como se dá a troca nesse processo necessita de valores e comportamentos muito mais bem “digeridos” do que conhecimento em si. Professor e aluno têm suas parcelas de responsabilidade equiparadas no processo e, somente com humildade e fraternidade de ambas as partes será possível estabelecer algum equilíbrio produtivo para o crescimento mútuo.

  Quanto aos rótulos que nos colam na testa devo fazer aqui outras considerações. Penso que os estereótipos partem, em princípio, de nós mesmos. Nosso comportamento e nosso discurso determinam a forma como nos enquadramos dentro da memória padronizada de distinção de tipos sociais, de pessoas e seus papéis, do seu “gueto” ideológico. Fico surpreso quando ainda desconsideramos a ideologia como condicionante comportamental e fiel da balança na tomada de escolhas, formulação de opiniões e ordenamento de discurso. O simples fato de termos o livre arbítrio, a condição de escolha, já determina critérios condicionados a idéias, por mais que muitas vezes isso se dê em um nível implícito. Ser um jornalista em entidade sindical, bem como ter um estilo estético característico do despojo, da simplicidade, que é uma questão de gosto, já me submete a um julgamento que desconsidera 99% do que me compõe como um homem, como um ser humano. Mesmo tentando fugir disso, acabo, por outro lado, reforçando tais rótulos, mesmo com toda a distância que eles têm de contemplar minhas particularidades e minhas condicionantes. Ser um sujeito expressivo também acarreta no mesmo problema de discernimento. Ter esse traço de personalidade me escravizou e me submeteu a expectativa do outro quanto a corresponder ao rótulo. Se falo, falo muito, e se não falo sou cobrado para falar. O meu direito de não estar num bom dia ou de preservar meu silêncio, minhas reflexões, foi comprometido por mim mesmo e pela nossa humana de organizar o pensamento, compartimentando, criando parâmetros e enquadrando a vida de acordo com uma paleta seleta e particular de cores. Na fotografia o mesmo se dá, por exemplo, já que fotografamos não aquilo que é, mas sim aquilo que temos na cabeça como sendo o que é, sabe como é?

   A confusão que se faz entre militância, ideologia e política pra mim é outro entrave. Porque, apesar de serem todos interdependentes, podem ser analisados e considerados isoladamente também. Porque nem todo mundo que milita o faz por uma orientação política e, nem toda a política se faz com base em preceitos ideológicos convencionados. Acho que quem sobrevive nesse paralelo é a ideologia, mas sobre uma forma mais livre, menos referendada. O equívoco cometido por muitos é pensar que ideologia se resume a Capitalismo e Socialismo, ou quisá Comunismo e Anarquismo, quando na verdade não há referencial permanente para determinar o que pode ser ideológico. Mas o rótulo – no meu caso de jornalista sindical falante! – me prende a tal julgamento: o de que meu discurso e minha atitude são de um sindicalista socialista revolucionário e que, para quem discorda, é algo que não me faz uma pessoa séria. Claro que isso não é uma interpretação de todos. Para quem se considera socialista eu sou um companheiro! Por mais crítico no discurso ideológico distante da prática que eu seja. Tais compartimentações estreitam nossa capacidade cognitiva, inclusive, de visão ampla de mundo, um mundo que cada vez mais necessita desse tipo de visão mais ampla, que abraça com mais facilidade as mudanças do ser humano e a subjetividade do mesmo, refletida nas formas de relação com os demais seres e o mundo.

  Dentro de todas essas considerações, na busca por tentar amarrar as três palavras do título do texto, faltou uma fundamental: Amor. Poderia discorrer aqui sobre amor na sua forma mais abrangente, que serve de motor para tudo nessa vida, seja nas relações com o outro, com o mundo ou consigo. Faz pouco que me redescobri como homem. Talvez tenha mesmo apenas descoberto, já que o Ser homem de hoje pra mim não se enquadra em nenhuma outra compreensão que tive anteriormente. Em meio à busca por humanizar minha postura e apaziguar meu coração, me vi retomando parte do adolescente que já não sou mais, parte do jovem que ainda luta por sobreviver e parte do adulto que gostaria de ser. O que diferencia homens de meninos é a atitude. Isso serve pra diferenciar tudo, não só a evolução cronologia, mas também a maturidade de gênero. Deixar com que meu orgulho se esvaísse e lutar por aquilo que creio como pessoa, se tornou ponto passivo de felicidade e coerência, não mais uma vontade revolucionária sem causa.  Mas o complexo não é lidar consigo, mas sim lidar consigo perante o outro.  Apesar de buscar construir bases mais justas e coerentes para o meu caráter, isso tem esbarrado na forma como o outro procede perante tal iniciativa. Em geral menospreza-se, perde-se o respeito e se negligencia aquele que difere da média. Por mais que no discurso as pessoas alardeiem a vontade de ética e caráter, na prática o que se faz e depreciar aquele que busca coerência. Assim constroem-se discursos como “homens não prestam” ou “política não é coisa séria”. Novamente somos injustos, nos excluímos do cenário para tecer a crítica ao outro, sem considerar a si no contexto dessa avaliação.

   Deixei-me ser desrespeitado, menosprezado e manipulado por amor. Por que entendo que a causa é nobre. E mesmo entendendo que isso é meu, que cabe a mim como decisão, há sim, sempre, a expectativa que o outro corrobore com a visão amorosa do respeito e da partilha. Tem amigo meu que diz que sou otário por me deixar sofrer. Mas eu me sinto cada vez mais humano quando me perco em meio a tais sentimentos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A cobra que come o próprio rabo



   Estou chegando a conclusão que certos esforços de cunho externo a nós são desperdício de energia. Me refiro, principalmente, aos esforços que visam criticar a nossa vida social e nossos referenciais morais. Enfim, aquilo que media nossa vida comum. Por que, se por um lado é necessário enxovalhar as bobagens sem tamanho que são Big Brother Brasil, vida de celebridade, consumismo, individualismo, posicionamento dos desafetos ideológicos, políticos, futebolísticos e afetivos baseados na paixão, já que essas bobagens são responsáveis por grande parte da ignorância que permeia nossa vida comum, por outro a insistência na crítica que rebate e coloca no devido lugar essas porcarias acaba por reforçá-las, conferindo mais notoriedade e dando mais visibilidade ainda para tais besteiras. 

   O maior exemplo disso é a insistência de gente que arrota discurso de inteligente, revolucionária e consciente dos instrumentos de manipulação e alienação de massa usados pela mídia burguesa, em falar mal sobre o famigerado reality show global - que de real nada tem. "Porque o Bial cobriu a queda do muro de Berlim! Como ele se submete a isso!", dizem alguns jornalistas e comunicadores conhecidos meus, em uma demonstração de ignorância e de certa ingenuidade que me espanta, ainda mais quando vem de pessoas que pretensamente entendem do assunto.  Para mim, a escolha por tecer críticas a conduta do apresentador, bem como as razões que levam ele e a emissora insistir na transmissão dessa gosma imensa que é o BBB, serve como um grito desesperado de auto-afirmação intelectual de alguns tantos filósofos de redes sociais. Me pergunto porque gente que diz desprezar tanto tal tipo de produto midiático insiste em falar sobre ele, dando destaque inclusive para as opiniões esdrúxulas que alguns emitem sobre os enredos do programa bem como querendo achar uma resposta condizente com a postura de Pedro Bial, o repórter ultramega star, que é inteligente demais para estar apresentando o BBB. Quem ainda faz esse tipo de comparação (muro de Berlin e BBB) infelizmente ainda não entendeu o que rege os critérios da mídia burguesa manipuladora nem mesmo sabe o que é jornalismo. 

   Faça você, que lê isso agora a seguinte reflexão: é sempre o mais capaz a assumir o papel de coadjuvante de luxo, ou o mais servil? E quem protagoniza, e sempre quem visa as boas intenções? O que garante a conduta ética do jornalista está atrelado as pautas que ele fez ou as ele se recusou a fazer? Ter sido mandando para cobrir uma pauta importante não é questão de caráter meus caros, nem mesmo a competência técnica. Escrever bem, ser bem articulado ou carismático não são garantias de bom caráter nem de ética. Não que eu esteja questionando o caráter do Bial, mas é que entendo, assim como entendo certos militantes de partidos políticos ou trabalhadores de empresas privadas, assim como entendo sindicalistas de centrais e torcedores de organizadas de futebol, que as escolhas sobre o que vai determinar nossa vida, que facção vou fazer parte, que tribo, que grupo, que turma, turvam nosso entendimento de pluralidade, coletividade e, inclusive, de qualidade de consumo de produtos sociais, como é a mídia, e os valores que permeiam essas palatáveis iguarias, presenteadas pelos Gregos, que nos deixam obesos de ignorância. Ando bem cansado do ufanismo dos extremos, sejam eles quais forem. Os rótulos não conferem qualidade as coisas. Até mesmo muitos daqueles que militam sob a bandeira do socialismo não sabem minimamente, fora do seu conhecimento teórico, viver em sociedade, comungar, ser solidário... Um exemplo recente que tenho disso foi a conduta da CTB na abertura do Fórum Social Temático, realizado em Porto Alegre, em janeiro desse ano. A passeata de abertura do Fórum, que nos últimos 10 anos foi puxada pelo movimento da Paz, precisou da interferência da organização do evento porque os sindicalistas insistiam em sair na frente, ameaçando com agressão, inclusive, aqueles que resistiram ao grito egocêntrico do que ali estavam. Com gritos de guerra e comportamento de organizada de futebol, o pessoal da CTB acabou reforçando, mesmo com as bandeiras ditas libertárias que defendem, o reacionarismo, autoritarismo e a ignorância responsáveis pela falta de credibilidade que muitas pertenças entidades civis e políticas tem perante a sociedade. Depois culpam o povo pela inércia de mobilização no país. Digo o mesmo com relação aos críticos do sistema que do alto de sua razão continuam a alimentá-lo, porque não acham "justo" abrirem mão de algum conforto advindo da subserviência dispensado ao mesmo sistema que criticam.

  Talvez essas minhas colocações estejam movidas de algum sentimento de revolta momentânea, provocada pela insistência da hipocrisia cotidiana. Sendo assim me torno também um certo extremo, e serve para mim o mesmo discurso que destilei aos outros. A vida tem contradições sim. Mas o que estou tentando dizer aqui é que se você não concorda, não gosta ou não quer, então não alimente, não propague! Essa seria a atitude mais coerente para com o desprezo que se tem, pretensamente, para com as merdas midiáticas, políticas, ideológicas e morais dos dias de hoje.  Ao invés de arrotar razão, reverta a emoção e trabalhe, de atenção e foco, para aquilo que se opõe a realidade nefasta que criticamos.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A democracia e sua expressão


Por elaine tavares  - jornalista

O teórico do jornalismo, Adelmo Genro Filho, já havia revelado no seu livro “O Segredo da Pirâmide” que, apesar de ser filho dileto do capitalismo, existem momentos nos quais o jornalismo não pode esconder as contradições da vida real. Daí a possibilidade do seu caráter revolucionário. Penso que é o que temos visto, nos últimos dias, na televisão. Apesar da posição sempre servil das emissoras com relação ao poder, e das informações aparentemente desconexas, se procurarmos juntar os fios das informações, podemos ter um quadro sem retoques da tão defendida democracia liberal. Nela, ao contrário do que dizem os porta-vozes dos governos, o que não existe é a liberdade. Mas é preciso aclarar: a liberdade dos pobres. A eles é vedado o direito a qualquer reivindicação. Se ficarem quietos, agüentando tudo, está certo. Mas se resolverem gritar contra qualquer filigrana do poder, a força da “democracia” aparece com um estrondo sem lugar.

Todos os dias, a pedagogia da sedução do sistema capitalista joga para dentro das cabeças a idéia de que a democracia do mundo ocidental é a melhor coisa que pode acontecer aos povos. Foi assim quando os Estados Unidos quis invadir o Afeganistão. Pintaram os talibãs como diabos e diziam que a alegria só voltaria ao país se ali entrasse a democracia. Invadiram, depuseram o talibã, implantaram a democracia e tudo seguiu como antes: violência, terror, mortes. Depois foi a vez do Iraque. Sadam era o demônio antidemocrático. E lá foram os soldados estadunidenses a levar a democracia. Resultado: violência, terror e milhões de mortos. Cenas que seguem se repetindo até hoje. Ora, se a democracia iria resolver tudo, como não resolveu? Ano passado foi a Líbia que mereceu a visita da democracia. Que se passa por lá agora? Por que os meios não nos contam? Reina a paz? A mesma que eles querem impor à Síria, agora a bola da vez para receber a democracia.

Mas, não precisamos ir muito longe, no Oriente Médio, para ver como a democracia se comporta. Basta uma olhadinha para nós mesmos. A desocupação da comunidade do Pinheirinho no final de janeiro, com todos os requintes de brutalidade, é um exemplo bem claro. Os empobrecidos, sem casa, sem esperança, sem nada, ocuparam uma terra abandonada. Lá ergueram suas casas e lá viveram por oito anos. Uma vida. Agora, a justiça (assim, com minúscula) decide que ali não é lugar de pobre morar e começa todo um processo de demonização das pessoas. São bandidos, marginais, gentes sem estofo. Não merecem a pena de ninguém, daí que as cenas brutais das casas sendo destruídas, das famílias sendo despejadas, dos animais sendo mortos e outras tantas gentes sendo presa ou desaparecida já não comove boa parte das pessoas. O recado da democracia já havia sido dado: aquelas criaturas não eram gente, logo, a violência é bem vinda. É limpeza.

Hoje, assisti as cenas na Bahia, divulgadas pelos jornais nacionais. Os repórteres falam dos vândalos que saqueiam lojas, dos bandidos que circulam pela madrugada baiana, das “badernas” dos familiares dos policiais em greve e, é claro, os grevistas são pintados como os grandes responsáveis pelo caos que se instalou na bela capital baiana. Então mostram a atitude acertada do governo central que mandou jovens do exército nacional para garantir a lei e a ordem. E mostram alguns moradores saudando a vinda do exército para salvá-los. Os confrontos em frente a Assembléia onde estão os trabalhadores em greve são mostrados como distúrbios irracionais. Nenhuma das reportagens toca no nome do governador baiano, Jaques Wagner, como se o governo não tivesse absolutamente nada a ver com isso. Quando seu nome aparece é como o cara que vai garantir o carnaval, nem que tenha de trazer todo o exército para as ruas. Claro, a folia dos endinheirados é mais importante do que liberar uns poucos caraminguás aos policiais.

Pois essa é tão amada democracia burguesa. A lei e a ordem dos poderosos, dos que tem o dinheiro, dos que tem o poder. Qualquer rugosidade nessa paz do poder, e os remédios são imediatamente utilizados sem qualquer piedade. Há que impedir que a “doença” se alastre e há que agir com rapidez. E as doenças são, comumente, os empobrecidos, os sem-teto, sem terra, sem trabalho, os explorados, gente que vive assim, não porque quer, mas porque é levada à margem pela ganância e a sede de lucros de quem manda. Mas esses precisam ficar quietos, acatar todas as leis que são criadas contra eles, precisam aceitar de cabeça baixa todas as decisões que os graúdos lhes impõe, ainda que sejam injustas e imorais.
E a coisa é tão bem arrumadinha que, por vezes, as próprias “vítimas” – que é a maioria da população – aceitam a idéia de que é preciso viver na paz, sem perturbar a ordem dos que mandam. Aceitar o cabresto e viver das migalhas.

Ocorre que gente há que diz não. Não aceita. Não quer. Gente há que quer morar, viver, comer sorvete, levar o filho ao parquinho, ver um bom filme no cinema. Gente há que não se deixa enganar pelo canto vazio da ideologia que se expressa na escola, na família, na TV. Gente há que luta, que se rebela, organizadamente ou não.

O quadro da democracia burguesa é mais ou menos assim. Os que são jogados na miséria e na exploração, ou se revoltam individualmente e roubam, matam, perdem sua humanidade, ou se organizam em sindicatos, movimentos, e lutam coletivamente por mudanças. Uma coisa ou outra sempre vai acontecer, ou as duas juntas ao mesmo tempo. Não dá para fugir disso. É da condição humana caminhar para a beleza. Ninguém pode aceitar viver sem isso.

Assim, sejamos espertos, observemos as notícias com o grosso lápis da história e vamos ligando os fios. O desenho final é o quadro da opressão massacrando aqueles que querem participar do banquete, enquanto na televisão os lobos aparecem como cordeiros, e os cordeiros como lobos. Um espelho invertido que precisa ser quebrado. Já vimos essa história aqui mesmo na pele, com a revolta da catraca, ou a luta dos professores pelo simples cumprimento de uma lei.


--
Empfehlen Sie GMX DSL Ihren Freunden und Bekannten und wir
belohnen Sie mit bis zu 50,- Euro! https://freundschaftswerbung.gmx.de